A liberdade de fazer o que você não quer

Meu primeiro pensamento de revolta veio numa das aulas de equinocultura. A sala ficava no hospital veterinário de grandes animais, numa espécie de puxadinho com paredes infiltradas. Era escura e tinha cheiro de bicho e mofo.

A matéria da aula aparecia na parede vindo de um datashow com slides da época da inauguração de Brasília e eu precisava aprender sobre cólica equina e todas aquelas coisas de cavalo que não faziam (e até hoje não fazem) sentido para mim.

Eu tinha 20 anos, poucos amigos e uma capacidade extremamente limitada de interpretar minha desilusão. Eu sabia que algo estava errado, me sentia sufocada e sabia que não queria estar ali; mas não sabia por quê.

Então, sem rumo, emendei no mestrado. O que uma pessoa que detesta análises e ama paletas de cores estava fazendo de avental num laboratório, eu também não entendia. Tão imatura quanto antes, o mais longe que meu raciocínio conseguia chegar era “eu não gosto disso, eu não quero isso”.

Somente dois anos depois e com mais um diploma na mão, consegui finalmente acrescentar uma terceira frase à minha visão da vida. “Eu não gosto disso, eu não quero isso e eu nunca mais vou fazer isso”.

Me sentindo orgulhosa e rebelde, engavetei corajosamente meus sete anos acadêmicos e comecei a materializar meu sonho de viver uma vida em que eu nunca mais precisasse fazer o que eu não quisesse.

Isso significava nada de chefe, nada de horário, nenhum uniforme e nunca mais ter que provar nada para ninguém. Eu me sentia dominante e livre. E, assim, vivi os anos mais apaixonados da minha vida.

Se eu enjoava, parava. Se cansava, desistia. Se me entediava, destruía.

Era como se todo dia eu acordasse com minha lancheira pronta e dormisse com a louça lavada. Eu não precisava mais estudar cavalos ou entregar dissertações. Não precisava dar satisfações ou pedir férias. A vida me mimava. Eu tinha tudo que eu queria.

Teria sido um plano perfeitamente sustentável se algo inesperado não tivesse acontecido: alguns anos depois, eu quis deixar de ser criança.

Enquanto eu fazia apenas o que queria, minha loja se arrastava, meus funcionários se perdiam e meus relacionamentos se distanciavam. Eu ditava praticamente todas as regras, exceto as do futuro, que parecia um borrão sem perspectiva.

Eu tive que chegar perto dos trinta para entender que minha “vida livre” só me limitava. “Só fazer o que quero” significava fazer apenas uma parte de tudo que estava disponível para mim. E nem era eu que escolhia, estava dado e fixo.

Como um peixe que jura que o aquário é oceano, eu nadava feliz, mas nadava em círculos. E então, num belo dia, eu resolvi querer mais – do mundo e, principalmente, de mim mesma.

Hoje, muito do que eu faço ainda é o que eu quero, mas percebo que só sinto realização quando faço aquilo que eu disse que faria; e a ótima notícia é que eu posso dizer qualquer coisa.

Incluindo às minhas possibilidades o que eu não gosto, aquilo que eu não quero e tudo que eu nunca mais faria, sinto que estou começando a sentir um gostinho de liberdade – e essa vida, agora sim, não me parece ter limites.

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